tudo o que não escolhemos fazer com o nosso tempo

Ponhamo-nos num cenário hipotético, numa mão, Anna Karenina, noutra, telemóvel. “Tolstói espera um bocadinho”, pensamos, “vou responder a uma mensagem”, “deixe-me dar aqui uma olhadinha”. Confrontamo-nos com um vídeo qualquer, possivelmente a falar sobre como a última música da Taylor Swift descreve tão bem a experiência da irmã do meio, e, sendo assim, nós, irmãs do meio e apreciadoras da Taylor Swift, fomos apanhadas. No vídeo a seguir, mais uma experiência que consideramos única e íntima é exposta na frente dos nossos olhos. Questionamo-nos por alguns segundos, “Como é possível que estes estranhos vivam vidas tão semelhantes à minha? Como é possível que alguém em algum lugar saiba disso e reúna-os todos para a minha apreciação?” A este ponto o Tolstói já é história, fomos sequestradas. As próximas horas da nossa vida serão ocupadas por uma espécie de alimentação forçada de conteúdos variados. Passados os primeiros trinta minutos já sabemos qual vai ser o nosso próximo perfume, mais trinta e já temos duas opções de malas para comprar, outros trinta e temos mais cinco produtos na wishlist para completar a nossa falha rotina de skin care. 
Eu não sei o que é o “algoritmo”. Vejo-me obrigada a confessar, sou completamente alheia aos zeros e uns que compõem qualquer uma destas instituições de desperdício de tempo. No entanto, continuo fascinada por elas e, principalmente, pela sua imposição. Não quero atribuir aqui um valor pré-determinado a Anna Karenina, nem nada que se pareça, mas acredito que, estando em jogo este ou qualquer outro livro, lê-lo é uma escolha, virar cada página é uma escolha, interessar-se pelas personagens e pela sua história é uma escolha, identificar-se com estas personagens - mesmo que elas nunca tenham ouvido Taylor Swift - é uma escolha. Vídeos de 30 segundos não são uma escolha, eles consomem-nos, na mesma medida que os consumimos. Deixamos de escolher e tornamo-nos aquilo que eles querem de nós, porque eles foram capazes de alienar um dos nossos bens mais preciosos, o nosso tempo. Acreditando que fosse apenas uma visita passageira, presenteamos este invasor com as nossas horas, e ele nunca mais as devolveu.
Perdemo-nos nesta amálgama de conteúdos de nicho, publicidades não identificadas e reflexões pela metade, gostaria que nos encontrássemos novamente. Não é preciso que a escolha seja sempre Tolstói, podemos escolher fumar um cigarro na esplanada, ou voltar a assistir os Diários de Bridget Jones, creio que o único ponto essencial é que possamos escolher.
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