terra

O lugar de onde eu vim é um borrão, não consigo restituir as ruas, e não tenho memória dos jardins. Falar de qualquer lugar que eu habitei antes de Lisboa é, para mim, falar da minha mãe. 
A minha mãe nasceu em 1973, no dia 18 de junho, e tornou-se minha mãe precisamente 31 anos depois, no dia 18 de junho de 2004. Antes de ser minha mãe ela era pequena e jovem, mas eu tenho a impressão de que ela sempre foi maior.
Quando pequena ela tinha poucos sapatos, depois teve muitos, e agora eu acho que ela se preocupa cada vez menos com isso. Quando jovem ela atirou ovos ao Fernando Collor de Mello num comício, coisa que eu descobri recentemente, na minha opinião, aí ela já se tinha feito grande. Quando adulta ela mudou de continente para me apresentar outro mundo.
Ela gosta de limpar, eu odeio o barulho do aspirador. Ela odeia que eu chore, eu às vezes choro sem parar. Nós gostamos de ir ao cinema, onde às vezes choramos juntas. 
A força do destino fez com que fôssemos só nós as duas, a minha incompetência faz com que às vezes seja só ela, e ela segue.
A minha mãe não é calma nem paciente, quando eu penso nela penso sempre em movimento. Tenho dificuldade em imaginá-la parada. Não sei como ela me imagina, se eu tivesse que adivinhar diria que é sentada no sofá. 
Quando estou noutros lugares, às vezes queria que ela me visse, queria que ela soubesse como estou dentro das salas de aula e que ela ouvisse quando digo algo que julgo inteligente numa esplanada.
Para mim, ela além de pessoa é lugar, foi nela que eu nasci. Enquanto crescia, espichei -me para outros lugares, que espero que o olhar dela não deixe de alcançar. Para mim ela é Brasil, porque o Brasil que eu conheci foi ela quem me apresentou, em filme, música, revolução ou televisão. Depois ela me deu pernas para conhecer o mundo.

fevereiro de 2024
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