Quando penso em amor, penso, essencialmente, em duas coisas: na música “Eu te
amo”, do Chico Buarque e no filme “Good Bye Lenin!”. Talvez seja estranho, numa primeira análise, que o mesmo sentimento me transporte para uma música brasileira dos anos 80 e um filme alemão de 2003, mas acredito que esta discrepância acompanha, de certa forma, a complexidade do sentimento.
A primeira vez que assisti “Good Bye Lenin!”, ao lado da minha mãe, quase
homónima da mãe do protagonista (Cristiani, a minha, Christiane, a dele), não foi díficil, para mim, perceber que o que motivou aquele rapaz, que se opunha fortemente ao regime soviético, a manter em pé o muro que havia sido derrubado, foi o amor. E se Gorbachev não conseguiu conservar a RDA, a verdade é que o amor de um filho por uma mãe revolucionária conseguiu, pelo menos por alguns metros quadrados. E por haver mãe revolucionária, há amor à revolução e, sem descreditar o amor romântico, não há, para mim, amor mais bonito do que aquele que transcende a nossa individualidade e se alimenta da crença num mundo que também possa transcendê-la.
Quando o Chico diz, em “Eu te amo”, “Se ao te conhecer, dei para sonhar, fiz tantos desvarios/ Rompi com o mundo, queimei meus navios/ Me diz pra onde é que ainda posso ir.”, penso na cena em que Christiane observa a estátua de Lenine a afastar-se, e que a queda de um regime pode, em muito, equivaler-se a um coração partido. Que bonito é amar, e que bom é poder amar com tanto esmero e tão profundamente a conseguir contrariar a reunificação da Alemanha e tornar socialista a Coca-Cola.
Enquanto houver amor, viverá a revolução.
agosto de 2022