Confrontada com a catástrofe que se alastrou pelo Rio Grande do Sul nas últimas semanas, confesso que as emoções foram várias e por vezes incoerentes. Na tentativa de lidar com a impotência da distância, combinada com o desespero de ver tomadas por água da chuva as ruas de Porto Alegre - um lugar que durante toda a minha infância representou uma espécie de abertura ao mundo além daquilo que o dia-a-dia me oferecia -, recorri aos meus mais velhos amigos, os livros.
Quando abri pela primeira vez o romance Incidente em Antares, do meu conterrâneo Érico Veríssimo, acreditava saber o que me esperava, um reencontro com o meu estado, com o chimarrão, o churrasco e as gurias. No entanto, e não saberia explicar bem o porquê, uma parte de mim acreditou que aquelas páginas poderiam representar uma espécie de fuga da realidade, uma viagem a um outro Rio Grande do Sul. Saúdo a minha inocência, palavra que utilizo por achar que estupidez talvez tenha demasiada força, mas, como podem imaginar, não foi possível fugir de nada. Aliás, diria que, pelo contrário, vi a realidade exposta à minha frente de forma inequívoca.
A atemporalidade é, definitivamente, uma característica louvável, associada à boa literatura. Porém, e sou obrigada a frisar que não pretendo com isto tirar do Veríssimo qualquer mérito, visto que noutra ocasião poderia facilmente escrever extensamente com o único propósito de lhe tecer elogios, a sobrevivência de Incidente em Antares ao feitiço do tempo parece-me estar associada, além do génio, a uma persistente incapacidade dos governantes, aqui, lá ou em qualquer lugar, de corresponder com interesses que não estejam intrinsecamente associados com a classe dominante.
A linha temporal traçada por Veríssimo das vicissitudes da política naquela pequena cidade do interior gaúcho é passível da mais completa extrapolação para o cenário atual, a mentira, a corrupção, a moral hipócrita, o descaso impetuoso. O autor desenha o retrato perfeito da negligência, o governo municipal de Antares não reconhece a legitimidade da luta dos grevistas, o que resulta num levantamento dos mortos, em estado putrefato, que assombra e perturba todos os habitantes da cidade. Voltando aos últimos acontecimentos, penso que um governo que ignora as alterações climáticas, negligenciando a legislação ambiental, enquanto assiste à miséria do seu povo pelas consequências desta, é ainda mais pútrido do que os cadáveres que se dispõe no coreto em Antares, enoja e enraivece.
Acredito que seja inevitável compreender, porque a realidade nos força, que a mudança dos tempos e das vontades muitas vezes é só máscara para a manutenção de um status quo opressor. De Antares ao Vale do Taquari, ficção em conluio com a realidade, de 1970 a 2024, as mesmas causas para novos problemas. Talvez o mais perfeito retrato dos nossos tempos seja, justamente, o reconhecimento da herança de tantos erros do passado, que continuam a impregnar o presente e parecem caminhar para o futuro, ou para o resquício de futuro que estes mesmos erros nos permitem imaginar.
maio de 2024