Camaradas, abril não pode ser uma visita à casa da avó em que abrimos o álbum de fotos e pensamos “Como cresceu o João”, sentindo-nos à vontade para substituir João por Democracia, e seguir a andar para maio, como se nada fosse.
As condições imploram para que pensemos em abril agora. Pensemos que abril não pode ser polícia de ninguém. O abril dos camaradas é o mesmo abril dos amigos, das amigas e dos amigues, é o abril das bichas, das travestis, dos transgêneros e das sapatões, dos pretos, dos pobres, dos imigrantes e das putas.
O abril dos camaradas é o mesmo abril de todos aqueles que passaram anos a ouvir um nome que não era seu, a viver uma vida que não era sua, a adequar-se a um espaço onde não cabiam, e depois tiveram de ouvir dos camaradas que não eram prioridade da luta. A prioridade da luta é viver com dignidade, camaradas, isso implica reconhecer algumas coisas que vão além do capital, camaradas. Não nos falem em prioridade da luta, camaradas, por favor não nos falem mais uma única vez em prioridade da luta.
Meus caros camaradas, vocês já receberam olhares pela rua? Daqueles que magoam? Estavam a fazer o que? A andar de mãos dadas com alguém que amam? Pois é, camaradas, entendem onde eu quero chegar?
Que lindo andar na rua de cravo na mão, a cantar a Grândola a plenos pulmões, camaradas, mas para carregar o símbolo, camaradas, é preciso pensar no que ele simboliza. Querem fazer a revolução camaradas? Vamos a isso, mas vamos a isso de verdade.
Ninguém quer cisão, camaradas, mas isso não significa fazer o que vocês acham certo, camaradas, para lutarmos de mãos dadas é preciso que vocês estejam dispostos a soltar a mão das instituições, e reconhecer, camaradas, que camaradas, camaradas mesmo, somos todes.
abril de 2024